Este blogue é uma simples Homenagem aos meus irmãos.
Para quem quiser deixar uma mensagem, historia de como os conheçeu, fotos e videos etc...
(Para o poderem fazer enviar endereço para vera.susana@hotmail.com e logo que possa inscrevo-vos no blog)
Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, arrastados no giro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos…
E eu mesmo, com os pés também imersos Na corrente e à mercê dos turbilhões, Só vejo espuma lívida, em cachões, E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…
Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei vivem comigo,
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem.
(Antero de Quental)
Este soneto de Antero eleva-nos ao encontro daqueles que amamos e que já não se encontram entre nós fisicamente, dando-nos a certeza de que estarão sempre connosco. Com eles poderemos falar e conversar, desabafar mágoas e relatar alegrias, pois nos ouvirão e entenderão como ninguém...
Escrevi este poema há mais de um ano, mas só dele me lembrei por ocasião do naufrágio e publiquei-o então num dos meus blogues. Houve nessa altura alguém que o leu e copiou para outro blog, alguém que sabia do acontecido e que deve ter pensado que o escrevi a pensar nos dois rapazes, pois publicou-o aludindo ao naufrágio dos dois. Resolvi dedicá-lo realmente ao Amâncio e ao Gilberto, como singela homenagem.
Barquinho que vais passando No rio da minha terra Quantos sonhos vais levando Quantas marés vais matando Como se foras pra guerra?
Lentamente, lentamente Olho o rio e olho o mar Na distância de um batel Que nunca me leva nele Por ter medo ao meu olhar.
Olha o barco sem barqueiro Que vai vogando no rio Onde está o marinheiro Destemido e aventureiro Que matará meu fastio?
O rio passa e não passa Só eu passo e ele não Que meu sonho o embaraça E ele finge ser vidraça Com cortinas de ilusão.
Olho o barco, olho o rio Olho as vagas uma a uma Será que aguento o fastio Sem temor nem arrepios De vogar por esta bruma?
Tanta bruma e nevoeiro Que engolem o meu barquinho Onde está o marinheiro Destemido e aventureiro Que guiará seu caminho?
Lentamente vai vogando De encontro às marés Que me chamam, pranteando Os sonhos que vou deixando Nas quimeras que não vês…
Cem anos que eu viva não posso esquecer-me Daquele navio que eu vi naufragar Na boca da Barra tentando perder-me E aquela janela virada pro mar
Sei lá quantas vezes desci esse Tejo E fui p´lo mar fora com a alma a sangrar Levando na ideia uns lábios que invejo E aquela janela virada pro mar
Marinheiro do Mar Alto Quando as vagas uma a uma Prepararem-te um assalto P´ra fazer teu barco em espuma
Repara na quilha bailando na crista Das vagas gigantes que o querem tragar Se não tens cautela não pões mais a vista Naquela janela virada pro mar
Se mais ainda houvesse mais fortes correra Lembrando-me em noites de meigo luar De uns olhos gaiatos que estavam à espera Naquela janela virada pro mar
Mas quis o destino que o meu mastodonte Já velho e cansado viesse encalhar Na boca da barra e mesmo defronte Daquela janela virada pro mar
Marinheiro do mar alto Olha as vagas uma a uma Preparando-te um assalto Entre montes de alva espuma
Por mais que elas bailem numa louca orgia Não trazem desejos de me torturar Como aquela doida que eu deixei um dia Naquela janela virada pro mar
(Frederico de Brito)
Naqueles dias a seguir ao naufrágio esta canção, escrita por Frederico de Brito e interpretada pelo saudoso Tristão da Silva, não me saía da ideia. Dolorosamente lembrando um naufrágio, não sei se real ou não, ela me falava e acalmava o coração. Procurei a letra na internet e publiquei-a num dos meus blogues. Publico-a também aqui, lembrando o naufrágio destes dois jovens tão apaixonados pela vida...
As ondas do mar são brancas No centro são amarelas Ai da mãe que cria um filho Para andar no meio delas... (quadra popupar)
Se não há palavras de consolo para quem perde um filho no mar, o que dizer a quem perde dois? Para essa mãe desventurada vão todos os meus silêncios e orações. Dos seus filhos fica a lembrança: Gilberto, o bem-disposto e alegre; Amâncio, o reservado, corajoso, trabalhador... Felipa Monteverde